As crianças sempre criaram suas próprias formas de se comunicar. A diferença é que, hoje, novas palavras deixam de ser usadas apenas entre amigos e passam a circular em velocidade impressionante graças às redes sociais, aos vídeos curtos e aos jogos on-line.
Expressões como "sigma", "NPC", "brainrot", "delulu" e, mais recentemente, "farmar aura" aparecem no vocabulário infantil antes mesmo de muitos adultos descobrirem o que significam.
Essa mudança desperta curiosidade, mas também levanta uma questão importante: afinal, os pais precisam conhecer todas essas gírias?
O que significa "farmar aura"?
A expressão surgiu na internet, principalmente em vídeos curtos publicados no TikTok e em outras plataformas. Ela faz referência à ideia de aumentar o próprio "status" ou parecer mais interessante diante dos outros.
Em outras palavras, "farmar aura" significa fazer algo que aumenta sua reputação ou faz com que as pessoas o enxerguem como alguém admirável, confiante ou "descolado".
O verbo "farmar" vem dos jogos eletrônicos e significa acumular recursos de forma repetitiva. Já "aura", nesse contexto, representa a imagem que uma pessoa transmite para os outros.
A união das duas palavras criou uma expressão que rapidamente passou a fazer parte do vocabulário de crianças e adolescentes.
Por que essas gírias se espalham tão rápido?
A velocidade com que novas expressões surgem está diretamente relacionada ao ambiente digital.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Cetic.br, 93% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam a internet. Nesse ambiente, vídeos, memes, influenciadores e comunidades virtuais compartilham novas referências diariamente, fazendo com que palavras e expressões se espalhem em poucos dias.
É um fenômeno diferente do que acontecia anos atrás, quando as gírias costumavam permanecer por muito mais tempo.
O problema não é a gíria
É natural que pais se preocupem quando escutam palavras desconhecidas dentro de casa. No entanto, usar uma gíria não significa, por si só, que exista algum problema.
A linguagem faz parte do desenvolvimento social. Ao longo da infância e da adolescência, crianças experimentam diferentes formas de comunicação para construir identidade, fortalecer vínculos com os colegas e participar dos grupos aos quais pertencem.
O que merece atenção não é a palavra em si, mas o contexto em que ela é utilizada.
Algumas expressões surgem apenas como brincadeira. Outras podem carregar mensagens de exclusão, preconceito ou incentivo a comportamentos inadequados. Por isso, compreender o significado por trás da linguagem é mais importante do que decorar cada nova tendência.
Como os pais podem lidar com essas mudanças
Em vez de repreender ou demonstrar estranhamento, vale a pena transformar essas situações em oportunidade de conversa.
Perguntar onde a criança ouviu determinada expressão, o que ela acredita que significa e em quais situações costuma utilizá-la ajuda a criar diálogo sem julgamento.
Essa curiosidade também permite que os adultos compreendam melhor os conteúdos consumidos pelas crianças e identifiquem possíveis riscos quando eles existirem.
Mais do que conhecer todas as gírias da moda, o objetivo deve ser desenvolver pensamento crítico sobre aquilo que circula nas redes sociais.
Qual é o papel da escola?
A escola não tem a função de acompanhar cada nova tendência da internet, mas precisa compreender o universo em que as crianças estão inseridas.
Quando educadores conhecem essas referências, conseguem mediar conversas, contextualizar comportamentos e promover o uso consciente das tecnologias, sempre respeitando a faixa etária e o desenvolvimento infantil.
Educar também significa ensinar crianças a interpretar informações, compreender diferentes formas de comunicação e construir relações saudáveis, dentro e fora do ambiente digital.
O que a Minha Escola acredita sobre a linguagem das crianças
Na Minha Escola, entendemos que a infância acompanha as transformações da sociedade. Se antes as brincadeiras aconteciam apenas no quintal ou na rua, hoje elas também passam pelos vídeos curtos, pelos memes, pelos jogos e pelas redes sociais.
Ignorar esse universo seria ignorar uma parte importante da realidade das crianças.
Por isso, nosso papel não é proibir cada nova tendência nem transformar toda gíria em motivo de preocupação. Também não acreditamos que seja necessário conhecer todas as expressões que surgem na internet. O mais importante é compreender o contexto em que elas aparecem e ajudar as crianças a desenvolver um olhar crítico sobre aquilo que consomem.
Na prática, isso significa promover conversas, incentivar a curiosidade, orientar o uso consciente da tecnologia e fortalecer valores como respeito, empatia e responsabilidade. Quando a escola conhece o universo infantil, consegue transformar situações do cotidiano em oportunidades de aprendizagem.
Acreditamos que educar é acompanhar a infância como ela realmente é, sem perder de vista aquilo que nunca muda: a importância do diálogo, do vínculo e da formação integral de cada criança.
A linguagem muda. O diálogo não.
Novas gírias continuarão surgindo. Algumas desaparecerão em poucas semanas. Outras permanecerão por mais tempo e passarão a fazer parte do vocabulário de toda uma geração.
Para as famílias, o desafio não está em acompanhar cada palavra que aparece na internet, mas em manter uma relação aberta, curiosa e próxima das crianças.
Quando pais e escola se interessam pelo universo infantil, fica muito mais fácil transformar tendências passageiras em oportunidades de aprendizagem.



